quinta-feira, 1 de abril de 2010

AI!

Doem-me a cabeça e o universo. As dores físicas, mais nitidamente dores que as morais, desenvolvem, por um reflexo no espírito, tragédias incontidas nelas. Trazem uma impaciência de tudo que, como é de tudo, não exclui nenhuma das estrelas.
Bernardo Soares, Livro do Desassossego



s/título, ABrito @www.olhares.com

Midlife Crisis, Faith No More, Angel Dust, 1992


Não é fácil a tomada de consciência das limitações do nosso corpo. Não é fácil percebê-lo falível e vulnerável , barreira entre o querer e o fazer, reality call orgânico e doloroso que nos recorda que, afinal, o tempo também nos atinge com as suas marcas. A dor transforma o corpo visível em corpo risível, desgraçadamente patético, sombra do que já foi. Natureza madrasta, que acelera o relógio do corpo, ou atrasa o da mente, desfasando vontades e movimento. Do cyber-corpo ao corpo real vai a distância entre o possível e o limitado, entre o invencível e o vencido, entre um grito de vitória e um gemido de dor. Entre o corpo que sou e o corpo que sinto. Ai.


[O nosso corpo é]
um ser de duas folhas, de um lado coisa entre as coisas e, por outro lado, aquele que as vê e toca

Merleau-Ponty, 1997, Le visible et l’invisible suivi de notes de travail, Paris, Gallimard, 180:181

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Amanhã





Talvez amanhã surja um meteoro ardente,
um pássaro de fogo ou um renque de estrelas.
Talvez no mar em ondas altas se levante
um cavalo de espuma sobre todas elas.
Talvez por dentro do silêncio, na sombria
noite, rebente como um grito a luz do dia.
Talvez, nos olhos de quem chora, a claridade
provoque uma explosão de beijos e de risos
e até na mais obscura rua da cidade
os lamentos e ais deixem de ser precisos.
Talvez na ilusão que nos permite a esperança
possamos ir em frente e prosseguir a dança.


Talvez amanhã, Torquato da Luz


Amanhã. Um ano novinho em folha. 365 dias em branco para escrevermos a nossa história. Sem rascunhos. Incandescentes dentro dos abismos que habitamos.

Hoje à meia noite brindaremos. Convenientemente.


Foto: Midnight Snack, Mehmet Turgut
Som: New Year's Day, U2, War, 1983

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Credo




(...)
creio na carne que enfeitiça o além,


creio no incrível, nas coisas assombrosas,

na ocupação do mundo pelas rosas,

creio que o amor tem asas de ouro. amém.


creio nos anjos que andam pelo mundo, Natália Correia



Ter asas. Ter asas e querer usá-las para te aquecer esse corpo dorido. Sentir as asas abertas na eminência do vôo, livres, penas soltas fervilhando ao vento em frémitos de vertigem, sabendo-se senhoras de todos os abismos, e escolher não as usar. Permitir que a tua mão me afague as penas, alisando nelas as marcas do tempo, e não fugir. Acreditar que é possível. Que o futuro está aberto. Que, afinal, o "para sempre" pode existir. Ali. À distância de um abraço.


No espaço que não existe entre os nossos corpos cabe um universo inteiro.




som: Angel, Massive Attack, Mezzanine, 1998

foto: Dark Angel, by Ariel d'Angoulême
, 2009

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

livre-arbítrio

Para nós, R.






If you were mine

I wouldn’t want to go to heaven




Há a linha. Há o lado de cá. Seguro e familiar. Há o lado de lá, que ninguém sabe o que reserva. Parece simples a escolha? Errado. Nunca é. Porque o lado de lá tem mil poderosos mistérios imunes à razão. Porque o lado de cá é certo e por isso parece ser desprovido de sal, esse cristal tão precioso. Na teoria, deveríamos pensar antes de escolher. Na prática, somos animais, e agimos por instinto. E, esse, é presa fácil do lado de lá.


som: Cherish the Day, Sade, Love Delux, 1992
foto: ~Darkrose42 @ deviantart

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

how soon is now?





Para recomeçar, qualquer momento me parece bom. Ainda mais o Outono, e o Outubro. Há palavras que teimam em querer sair. Há sonhos que teimam em pairar à minha frente. Há ecos que deixei por aí. Queriam mais? Para breve? Pois que tal agora? É a hora.


som: how soon is now,
the smiths, hatefull of hollow, 1984
foto: pherrugem bar, porto, setembro 2009